Na verdade não havia a intenção de enviar a Voyager 1 para fora do Sistema Solar. Ninguém nem pensou em planejar atividades científicas depois que ela passasse por Saturno e Titã. Tudo o que foi feito pela Voyager 1 desde 1980 é parte de uma “missão estendida” criada depois da conclusão de sua missão original.
(Esquema do Grand Tour - um alinhamento ocorre uma vez a cada cerca de dois séculos)
A Voyager 1 foi lançada para seguir uma parte do "Grand Tour" - um alinhamento casual dos planetas que acontece uma vez a cada 175 anos ou mais, e que estava acontecendo na época do lançamento, em 1975-1977. De fato, a Voyager 1 não conseguiu aproveitar a maior parte do Grand Tour porque só foi lançada no final da janela desse alinhamento, restando apenas a possibilidade de visitar Júpiter e Saturno. A Voyager 2 já conseguiu passar por Júpiter, Saturno, Urano e Netuno porque foi lançada a tempo de pegar o final da janela estendida do Grand Tour, mais de duas semanas antes do lançamento da Voyager 1.
O ambiente ao redor de Júpiter é duro, com muita radiação. Os responsáveis pela missão nem tinham certeza de que a Voyager sobreviveria à passagem pelo sistema joviano, muito menos que chegaria a Saturno.
Quando a Voyager 1 conseguiu passar por Júpiter, ela estava a caminho de Saturno num curso de alta inclinação. Ela ia passar "por baixo" de Saturno, usando a sua gravidade para acelerar em direção a Titã, a lua de Saturno com atmosfera e possibilidade de vida.
(A Voyager 1 passa “por baixo” de Saturno a caminho de Titã)
Esse encontro foi tão crítico para a missão da Voyager 1 que, se alguma coisa não saísse bem, a Voyager 2 teria sido redirecionada para uma passagem por Titã, em vez de ter seguido para os outros dois planetas.
Os cientistas só estavam preocupados com Titã. Eles nem tinham certeza de que a Voyager sobreviveria ao meio ambiente em torno de Saturno, ou se sobreviveria ao passar tão perto de Titã - se Titã tivesse uma atmosfera mais extensa do que a visível da Terra, poderia ter danificado ou mesmo destruído a Voyager 1.
Mas eles arriscaram assim mesmo.
A Voyager 1 fez um sobrevoo de Saturno com muito sucesso e passou por Titã, enviando informações suficientes para que o curso estendido da Voyager 2 fosse aprovado.
(Titã visto da Voyager 1)
Com a maior parte de seu combustível de manobra já consumido, a Voyager 1 deixou Saturno viajando em um ângulo de 35 graus acima e para fora da eclíptica do Sistema Solar.
Sem outros planetas para visitar, não dava para mudar a rota da Voyager, por isso ela seguiu em uma linha mais ou menos reta - para ser totalmente correta, a linha é curva porque a Voyager está em um curso hiperbólico hiperbólico em relação ao Sol - na escuridão do sistema solar externo.
(A Voyager 1, bem acima da eclíptica - ou do plano do Sistema Solar - observando o Sol)
De fato, foi só depois que a Voyager 2 passou por Netuno, cerca de 11 anos após o lançamento das Voyagers, que alguém parou para calcular para onde elas estavam indo e descobriu que a rota da Voyager 1 a levaria a "passar perto" de Gliese 445.
Vale lembrar que os cientistas e engenheiros projetaram as sondas para funcionar durante uns 15 anos, no máximo. Ninguém sonhava que elas pudessem estar ainda nos enviando dados 42 anos depois do lançamento. Mas não tem como elas durarem o suficiente para enviar dados de sua passagem por outras estrelas no futuro distante.
Dentro de uns 5 ou 6 anos, o nível de energia das Voyager 1 e 2 será insuficiente para manter funcionando até mesmo os seus sistemas mais básicos, o computador vai registrar "PWRERROR" e vai colocar o sistema em modo de segurança . Somente o feed de engenharia de 60 bits por segundo vai ser transmitido à Terra.
Com os computadores inativos e sem uma orientação contínua, o transmissor de alto ganho da Voyager vai perder seu alinhamento com a Terra, e vamos perder contato.
Alguns anos depois disso, os aquecedores do compartimento dos instrumentos vai cair abaixo do nível crítico e o computador vai ser finalmente desligado por completo. A Voyager vai estar, de fato, morta.
Depois de uns 800 anos, o núcleo de plutônio do Gerador Termoelétrico de Radioisótopos (RTG) vai estar produzindo menos de 1% do seu calor original e a nave vai ficar na temperatura do espaço profundo.
Cerca de 39 mil anos depois disso, a Voyager 1 vai passar a impressionantes 1,76 anos-luz de Gliese 445. Isso não vai acontecer porque a Voyager está viajando em direção à Gliese, mas porque Gliese está vindo na direção do Sistema Solar com uma velocidade 12 vezes superior à da Voyager - Gliese vai passar a 2,5 anos-luz do Sol, não há motivo para grandes preocupações - nessa época a Voyager vai a 2 anos-luz de distância da Terra.
Chegar a Proxima levaria quase 30.000 anos a mais, porque Proxima está quase na sua aproximação máxima do Sol e daqui a 10.000 anos vai começar a se afastar de nós. Mesmo se não fosse assim, a Voyager levaria uns 90.000 anos para percorrer esses 4,22 anos-luz na sua velocidade atual.
Então, na verdade - de forma não planejada - os cientistas escolheram a estrela com a qual teremos um encontro nos próximos 100.000 anos. Não que isso faça alguma diferença. Até lá a Voyager 1 vai ser só um pedaço de metal e plástico inerte,avançando serenamente na escuridão, sozinha em um mar brilhante de estrelas, o primeiro emissário da humanidade para a Via Láctea, e o que terá chegado mais longe.
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