Primeiro, devemos considerar que a atual humanidade, que mal consegue manter uma república funcionando por mais de duzentos anos, sem dar um golpe ou eleger um palhaço, não teria real capacidade de colonizar outras luas e planetas do Sistema Solar.
Porém, vamos considerar algumas hipóteses…
1. Marte – o destino favorito dos otimistas com prazo de validade
Marte é o queridinho do nicho acadêmico! Vermelho, fotogênico, tem nome de deus da guerra, polariza bem nas thumbnails. Todo mundo já viu o slide de powerpoint: “terraformação em 100 anos”, “cidades-domo”, “crianças correndo em gravidade de 0,38 g”.
O que ninguém coloca no slide é a lista de "presentes" que Marte te entrega logo na primeira semana:
- Poeira fina que entra em qualquer vedação e funciona como lixa para o pulmão;
- Pressão atmosférica equivalente a 30 km de altitude na Terra;
- Radiação cósmica e solar que transforma o DNA em um código de erro aleatório em looping;
- Temperatura média de –63 °C (e isso é a média. À noite despenca para –140 °C);
- Ausência de campo magnético decente;
- Solo cheio de percloratos (basicamente veneno industrial que se transforma em gás tóxico quando você tenta cultivar batatas.
Resumo:
Marte não é um ambiente hostil. Marte é um homicida passivo-agressivo com PhD em termodinâmica e radiobiologia. Colonizar Marte com a tecnologia atual seria mais ou menos como tentar morar dentro de um freezer industrial, sem roupas, com um cara jogando formol no seu rosto de cinco em cinco minutos.
2. Luas geladas – Europa, Enceladus, Titã
“Ah, mas tem água! Tem oceanos subterrâneos! Tem plumas de vapor! Tem chance de vida!”
Sim, tem. E é exatamente isso que piora a situação.
Europa: oceano líquido debaixo de uma casca de gelo de 10–30 km de espessura. Para chegar na água você precisa furar uma geleira mais grossa que a Antártida inteira. Depois disso, operar submarinos robôs em um ambiente onde a pressão hidrostática chega a 100–150 atm e o campo de radiação de Júpiter te cozinha vivo em poucas horas.
Enceladus: jorra água no espaço. Muito bonito nas fotos. Mas essa água sai a –200 °C, em forma de partículas que funcionam como estilhaços supersônicos. É um gêiser assassino bem na sua cara.
Titã: lagos de metano líquido, atmosfera mais densa que a da Terra, temperatura de –179 °C. Você precisaria de um traje que ao mesmo tempo isola do frio extremo, resiste à corrosão química do metano/etano e não vira uma bola de gelo quebradiça.
Resumo:
As luas geladas não são “planetas promissores”. São caixas de Pandora criogênicas onde o prêmio principal é morrer de maneiras que nem os roteiristas de terror pensaram ainda.
3. Vênus
Tem gente que fala sério sobre “cidades flutuantes” na atmosfera venusiana, a 50–55 km de altitude, onde a pressão e temperatura são quase terrestres.
É verdade…lá em cima a pressão é ~1 atm e a temperatura ~0–50 °C. O problema é que…
- Venta constantemente a 100–120 m/s (furacão categoria 5);
- Costuma chover ácido sulfúrico concentrado;
- Possuí nuvens opacas que bloqueiam quase toda luz solar…esqueça os painéis solares!
- Sua Gravidade é de 0,9 g;
- Não possuí fonte sólida para ancorar (tudo vira balão).
Resumo:
Colonizar Vênus flutuante é como decidir morar permanentemente dentro de um liquidificador industrial cheio de ácido de bateria, só porque a temperatura da água do banho está boa.
4. Mercúrio e as demais rochas escaldantes
Ninguém fala sério sobre Mercúrio. É um forno de micro-ondas, funcionando aberto. Ponto.
Conclusão
É possível visitar outros corpos do Sistema Solar?
Sim, já estamos fazendo. Robôs fazem isso desde os anos 1960. Humanos podem pisar em Marte em 2030–2040? Provavelmente sim, se tudo der muito certo e ninguém cortar orçamento no ano errado.
É possível colonizar (isto é, manter comunidades humanas auto-sustentáveis por gerações) em qualquer outro corpo do Sistema Solar com a tecnologia que teremos nos próximos 100 anos?
Não é possível ("foi mal" Elon Musk). Não é questão de vontade, de dinheiro ou de “acreditar no sonho”. É questão de física, química e biologia gritando em uníssono: vocês não foram feitos para isso!!!!
O ser humano é um animal de savana equatorial que respira oxigênio a 1013 hPa e 15–30 °C. Tirar ele desse envelope e colocá-lo em qualquer outro lugar do Sistema Solar é como jogar um peixe dourado na panela de pressão e torcer para que ele evolua pulmões de titânio.
Uma colonização real, em escala de civilização, exigiria:
- Revoluções tecnológicas que hoje estão no campo da ficção científica (campos magnéticos artificiais planetários, propulsão que viola o que sabemos de física, manipulação genética extrema, nanomáquinas autoreplicantes),….
- Que a espécie humana deixe de ser “humana” no sentido biológico clássico.
Até lá, o que teremos são postos avançados caríssimos, insuportavelmente frágeis e com taxa de mortalidade que desbancaria qualquer general da Primeira Guerra Mundial.

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