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sexta-feira, 24 de abril de 2026

O quão cientificamente correto é o filme Gravidade?

 

Gravidade é um filme arrebatador lindamente fotografado com atuações fantásticas, especialmente a de Sandra Bullock. Os cenógrafos demonstraram uma incrível precisão em seu trabalho. Os escritores, não.

É melhor encarar Gravidade como um delírio ou fantasia. É entretenimento. É exatamente o tipo de história que eu costumava pensar quando era criança e fazia grandes voos sobre o Atlântico. É como se uma pessoa que tirou todo seu conhecimento sobre a exploração espacial da CNN tivesse tendo um devaneio do estilo "e se?". Os maiores problemas são a falta do conhecimento do espaço tridimensionalmente falando, e da escala da Terra.

A história começa com a tripulação do Space Shuttle Explorer fazendo reparos no Telescópio Espacial Hubble. Clooney é um astronauta muito experiente em seu voo, e Sandy, apesar de ser chamada de especialista da missão, é o que costumamos chamar de especialista da carga útil. Ela diz que só treinou por seis meses para esta missão. Isto jamais aconteceria com um tripulante que faria uma atividade extra veicular, mas tudo bem. Ela diz também ser uma médica, mas seu propósito neste voo é instalar um hardware que ela desenhou para o Telescópio Espacial Hubble. Não tenho muita certeza de como isto poderia funcionar.

Durante a caminhada espacial um míssil destrói um satélite russo. Os restos deste satélite atingem outros satélites, destruindo-os. CapCom (N.T.: o controle da missão), em Houston, avisa a tripulação do Shuttle que a missão deve ser abortada porque os destroços são um perigo para eles. O CapCom também avisa que os satélites de comunicação também serão destruídos, ou seja, eles perderão em breve o contato com o solo.

Os destroços chegam e atingem o Shuttle e o Hubble, destruindo o Shuttle e deixando apenas dois tripulantes que estavam no passeio espacial vivos.

Esta é uma imagem em 2D que mostra a escala das órbitas dos TDRSS (os satélites de comunicação), do Hubble e da ISS.

O círculo azul representa a Terra e existem dois círculos muito próximos a ela, que são as órbitas da ISS, a aproximadamente quatrocentos quilômetros de altitude, e do Hubble, a aproximadamente quinhentos e sessenta quilômetros de altitude. Além deles, no círculo maior, está a órbita geoestacionária, onde ficam os TDRSS.

Esta, abaixo, é uma visão lateral que mostra a inclinação das órbitas (a escala das órbitas dos TDRSS está errada).

Uma das falas do CapCom é bastante infeliz, onde dizem que os destroços estão subindo para sua altitude. Vamos fingir que não ouvimos, já que isto não faz sentido nenhum.

Agora observe estes dois diagramas e tente imaginar em que órbita os destroços teriam que estar para serem capazes de destruir os TDRSS e ainda cruzar com a órbita do Hubble. Lembre-se de que as órbitas devem passar pelo centro da Terra.

Enfim… Então nossos dois tripulantes decidem usar um jetpack movido a nitrogênio para voar do local onde estava o Hubble até a ISS, para a qual a personagem do Clooney aponta e diz que está a cem quilômetros de distância. Existem dois pontos possíveis de suas órbitas em que o Hubble e a ISS podem ficar a aproximadamente cento e cinquenta quilômetros de distância, os dois pontos em que as órbitas se sobrepõem naquela imagem de perfil. Já que as órbitas do Hubble e da ISS não estão sobre o mesmo ângulo orbital e suas velocidades orbitais são diferentes, as chances deles estarem naquele ponto de intersecção ao mesmo tempo são bem pequenas. Como as inclinações são diferentes, o tempo em que os dois estariam próximos também duraria apenas alguns segundos.

Clooney calcula que os destroços voltarão em aproximadamente noventa minutos, baseado em suas órbitas. Isto significa que eles estão na órbita baixa da Terra, o que nos faz perguntar novamente como eles conseguiram atingir os TDRSS que estão muito mais distantes.

Enfim… Eles começam a se dirigir para a ISS, o que seria um feito incrível, já que um jetpack real daqueles tem um alcance máximo de aproximadamente cento e cinquenta metros. Incrível também porque, durante o último voo de reparo do Hubble, a NASA analisou se seria possível levar o Shuttle do Hubble para a ISS caso encontrassem tijolos do isolamento térmico danificados. A resposta foi "não". E nós quase não realizamos esta missão por conta disto.

E é aqui que a mecânica orbital vai para o espaço. Não apenas eles viajam em linha reta até a ISS, coisa que qualquer atirador te dirá que está errado—você sempre mira à frente de seu alvo, não nele próprio. Mas a mecânica orbital não funciona bem assim. A velocidade orbital é definida pela altitude, ou seja, quando você desce em direção à Terra, sua velocidade para a frente aumenta. A manobra que eles precisariam fazer envolve mudanças de planos e altitudes, e requereria muita, muita energia.

Clooney pronuncia "Soyuz" como se fosse uma palavra espanhola. Isto deve ser culpa do diretor, que é mexicano. Ele também se refere ao FGB como Zarya—astronautas dificilmente falariam assim. Zarya é um termo usado apenas pelas relações públicas da NASA e o público em geral.

Eles conseguem chegar à ISS. Os dois tentam se agarrar aos painéis solares, o que provavelmente os eletrocutaria, mas tudo bem. Sandy também se move com velocidade e destreza impossíveis em uma atividade extra veicular.

A tripulação da ISS também recebeu ordens de evacuar, mas ainda há uma Soyuz atracada à ISS. Isto não faz muito sentido, porque o número de Soyuz atracadas à ISS equivale ao número de tripulantes dividido por três. Se sobrou uma Soyuz, deveria haver ainda três astronautas a bordo. Mas eles não estão lá.

Os destroços também tinham atingido a ISS. Sandy entra na ISS e retira sua EMU (o traje espacial). Ela faz isto com facilidade (é bem mais difícil) e vemos que ela não está usando o traje de ventilação e resfriamento líquido. Sem ele, ela teria desmaiado de calor durante o passeio espacial. Ao invés disto, ela está usando uma blusa e um short justos. Sandra tem pernas lindas para alguém de vinte anos, quanto mais alguém de quarenta e nove anos, então não estou reclamando… Mas que o realismo foi para o espaço novamente, foi.

O que Sandy usou por baixo de seu traje espacial

Repare nos dois laptops debaixo dela—o da esquerda é um Computador de Suporte à Estação, e o da direita é um laptop russo. Em outra cena vemos um laptop PCS americano. Os três mostram telas reais (a não ser quando começam a mostrar o aviso de incêndio). São detalhes importantes que foram percebidos pela cenografia.

Enquanto Sandy está na ISS, acontece um incêndio. Ele se alastra rápido demais, afinal quase nada na ISS pega fogo.

O que um astronauta real usaria por baixo de seu traje espacial.

Já que não podia mais usar seu traje espacial original, Sandy não coloca um traje russo Orlan—o que é usado para passeios espaciais—mas sim um traje Sokol (o traje de pressão que é usado dentro das Soyuz).

Sandy usa a Soyuz danificada para viajar até a Estação Espacial Chinesa, que por coincidência também está a cem quilômetros de distância. Sandy diz que explodiu a Soyuz todas as vezes em que a pilotou no simulador. Como especialista da missão designada para reparar o Hubble em um Shuttle, ela jamais teria treinado em uma Soyuz, então não tenho muita certeza de como ela conseguiria destruir a cápsula no simulador. Apenas tripulantes da ISS fazem treinos para pilotar as Soyuz.

Quando Sandy chega à Estação Chinesa, ela está saindo de órbita. Este processo demora meses, mas no filme acontece em um punhado de horas.

Então, para responder à pergunta, qualquer um que sabe como funcionam as missões espaciais vai achar o filme bastante impreciso, mas se você ignorar isto, pode ter certeza, é um filme divertidíssimo que vale a pena ser visto.

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