Nós temos esta obsessão doentia por gavetas. Queremos arrumar o mundo, etiquetar a realidade e separá-la como se arrumamos a roupa suja, na esperança de que, ao criar compartimentos, o caos se torne menos aterrador. Na física, essa necessidade é a nossa tábua de salvação.
Temos a Mecânica Clássica para as bolas de bilhar e os planetas, a Termodinâmica para o calor e a entropia que nos consome lentamente, o Eletromagnetismo para a luz e a eletricidade que te permitem estar aqui a questionar, a Relatividade para o tempo que é, afinal, elástico, e a Mecânica Quântica para o mundo do muito pequeno, onde nada faz sentido e tudo é uma questão de probabilidade.
Vivemos a vida toda a fingir que conseguimos separar as coisas que, na verdade, se fundem. Separamos a política da moralidade para conseguirmos dormir à noite, como se o que se passa num gabinete não definisse o pão que chega à mesa, e tentamos convencer-nos de que a vida profissional não contamina a pessoal, mesmo quando levamos o stress do patrão para o jantar de família.
Se no nosso dia-a-dia aceitamos esta divisão absurda entre coisas que se entrelaçam de forma indissociável, por que raio haveríamos de exigir que a física fosse uma massa informe e confusa?
A natureza, essa, não se importa patavina com as nossas etiquetas. Mas nós, mortais limitados, precisamos delas para não perder o juízo. Misturar a gravidade de Newton com a incerteza de Heisenberg seria o equivalente a tentar misturar um funeral com uma festa de anos na mesma divisão da casa. O resultado seria um espetáculo grotesco de dissonância cognitiva.
Se não misturamos laranjas com maçãs, ou o nosso caráter privado com a nossa imagem pública, não podemos esperar que as leis fundamentais do universo se comportem como se fossem todas a mesma coisa. A divisão existe porque o nosso cérebro, coitado, não tem capacidade para processar a vastidão do real de uma só vez, e preferimos uma mentira organizada a uma verdade incompreensível.
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