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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Outro Universo escondido

 

Popławski utilizou a teoria de Einstein-Cartan, que é uma extensão da Relatividade Geral que não se limita a olhar para a massa e para a energia, mas introduz o "spin" ou a torção do espaço-tempo na equação. Imagina que, quando uma estrela maciça num "universo pai" colapsa sobre si mesma, ela não desaparece num ponto de densidade infinita; a tal singularidade que tanto irrita os matemáticos porque nada faz sentido nela. Em vez disso, a torção atua como uma espécie de mola gravitacional, impedindo que a matéria se esmague infinitamente e forçando-a a expandir-se para o outro lado, por assim dizer.

Portanto, esse buraco negro pré-existente era um objeto físico num universo que já existia antes do nosso, e o nosso Big Bang foi o "salto" dessa matéria a ser cuspida para um novo espaço-tempo.

O que isto implica em termos do "antes" é algo que nos tira o tapete, pois sugere que o tempo não começou connosco. Se o nosso universo nasceu dentro de um buraco negro, então o "antes" é a história desse universo progenitor, com as suas próprias estrelas, as suas próprias galáxias e, possivelmente, as suas próprias leis físicas, ainda que ligeiramente diferentes.

É uma perspetiva que retira ao Big Bang aquele estatuto de momento místico de criação ex nihilo e o transforma num evento biológico, quase uma hereditariedade cósmica. E aqui a coisa fica verdadeiramente fascinante, porque se aceitares esta premissa, tens de aceitar a ideia de que o nosso próprio universo, ao criar buracos negros, está a plantar sementes para novos universos-bebé. Como uma matriosca infinita, onde cada horizonte de eventos é a porta de entrada para uma nova realidade que nós, deste lado, nunca conseguiremos observar.

Mas não te deixes seduzir apenas pela beleza da narrativa, porque a validade disto, comparada com a Inflação Cósmica de Alan Guth ou o Modelo Cíclico, ainda é tema de acesos debates nas academias.

A teoria da inflação tradicional explica muito bem por que razão o universo é tão uniforme, mas deixa a singularidade inicial ali pendurada, como um erro de sistema que ninguém sabe bem como apagar. Já esta hipótese do buraco negro — muitas vezes associada à Seleção Natural Cosmológica de Lee Smolin — resolve o problema da singularidade de forma elegante; ela simplesmente não existe, sendo substituída por um "salto" (um bounce).

É claro que, para a maioria dos físicos, isto ainda é visto com uma cautela extrema, quase como uma heresia que carece de provas observacionais diretas, as quais, como deves imaginar, são penosamente difíceis de obter quando o laboratório está do outro lado de um horizonte de eventos intransponível.

No fundo, o que verdadeiramente sabemos é que a Relatividade Geral de Einstein funciona maravilhosamente bem até chegarmos aos momentos iniciais do Big Bang, onde as contas deixam de bater certo com a mecânica quântica. O que é hipótese é esta ideia de que vivemos num interior de Schwarzschild; o que é teoria robusta é a expansão do espaço que observamos; e o que não pode ser descartado é que a nossa ignorância sobre o que se passa no coração de um buraco negro seja precisamente a chave para entendermos o nosso nascimento.

Mas repara na nuance: dizer que o Big Bang veio de um buraco negro não é o mesmo que dizer que o universo é um buraco negro. É dizer que o nosso espaço-tempo é o resultado da matéria que, ao ser sugada num universo pai, foi expelida num "buraco branco" que, para nós, pareceu ser o início de tudo.

Toda esta jornada, se a pensares bem, é como um capítulo num livro que estamos a ler do meio para o fim. O buraco negro anterior é o parágrafo que ficou na página que alguém arrancou, mas cuja marca da caneta ainda se sente no papel que temos nas mãos. Não é apenas uma questão de física, é uma questão de perspetiva sobre a nossa própria finitude. Se cada buraco negro que vemos no céu através de um telescópio for, potencialmente, o berço de um universo inteiro, com os seus próprios seres a perguntarem-se de onde vieram, então o cosmos não é um vazio frio, mas uma floresta densa e vibrante de realidades sobrepostas.

E isto, meu caro, é uma ideia muito mais sofisticada do que qualquer nada absoluto.

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