O Hubble, operado pela NASA, revelou a imagem mais clara até agora da Nebulosa do Ovo. Créditos: NASA, ESA, Bruce Balick (UWashington).
A Nebulosa do Ovo, na direção da constelação de Cisne, está a cerca de mil anos-luz e virou um dos melhores laboratórios naturais para observar o fim da vida de uma estrela parecida com o Sol. O Hubble registrou um jogo de luz e sombra porque a estrela central está escondida por uma nuvem densa de poeira, e a claridade só aparece onde encontra caminhos para escapar..
Um fim de vida curto e raro
A Nebulosa do Ovo também é conhecida como CRL 2688 e é classificada como nebulosa pré-planetária: um estágio de transição antes de surgir uma nebulosa planetária (apesar do nome, isso não tem relação com planetas). O detalhe importante é o tempo: essa fase dura apenas alguns milhares de anos, o que torna esses objetos raros e valiosos para testar modelos de evolução estelar no “fim de vida”.
O que o Hubble traz de especial aqui é resolução: dá para ver padrões bem definidos que sugerem uma história de ejeções sucessivas, em vez de um evento único e caótico. É o tipo de imagem que transforma uma ideia geral (estrelas perdem massa no final) em evidência visual com formas, bordas e estruturas observáveis.
Esse contexto ajuda a entender por que o telescópio Hubble () continua sendo usado para revisitar alvos ao longo de décadas: em objetos que evoluem “rápido” para padrões astronômicos, comparar épocas diferentes é parte do método.
Luz que escapa por frestas
Nesta fase, a Nebulosa do Ovo não brilha primcipalmente por gás ionizado, e sim por reflexão: a luz da estrela central bate na poeira e ilumina as regiões que conseguem ser alcançadas. A própria fonte de luz fica bloqueada por um disco espesso de poeira expelido há apenas algumas centenas de anos, e a radiação escapa por aberturas polares.
O resultado mais chamativo são dois feixes que iluminam lóbulos polares rápidos, atravessando um conjunto mais antigo e mais lento de arcos concêntricos. Em linguagem simples: é como ver uma sequência de camadas, com um jato mais recente cortando as marcas de episódios anteriores.
Esse mapa de camadas é feito de poeira estelar rica em carbono, um tipo de material que, espalhado no meio interestelar, pode virar ingrediente de novos sistemas estelares no futuro.
As marcas de um sistema em companhia
As formas captadas são simétricas demais para lembrar uma supernova. A leitura mais plausível é que o padrão nasce de uma sequência coordenada de eventos de ejeção, ainda não totalmente compreendidos, no interior enriquecido em carbono da estrela moribunda.
Outro indício é que a estrela provavelmente não está sozinha: as formas e os movimentos sugerem interações gravitacionais com uma ou mais estrelas companheiras escondidas dentro do disco espesso de poeira, também mencionado nas descrições oficiais.
Com o tempo, o núcleo exposto esquenta o bastante para ionizar o gás ao redor e produzir o brilho clássico de uma nebulosa planetária. É a família de objetos que inclui exemplos famosos como a nebulosa da Hélice, além de outras nebulosas com formas bem marcantes.
Uma história que o Hubble volta para reler
O Hubble observa a Nebulosa do Ovo há décadas: houve imagens em luz visível com a WFPC2, um complemento em infravermelho próximo com a NICMOS (nos anos 1990), outra campanha com a ACS (anos 2000) e um zoom detalhado com a WFC3 em 2012.
A imagem mais recente combina dados do conjunto usado em 2012 com observações adicionais do mesmo programa, justamente para entregar a visão mais nítida e permitir comparação direta com registros mais antigos, mantendo o mesmo contexto de missão e instrumento.
Mesmo depois de mais de três décadas em operação, o Hubble segue ativo como um projeto de cooperação entre NASA e ESA; a NASA (via Goddard) gerencia o telescópio e as operações de missão, e o instituto responsável pela ciência do Hubble conduz as operações científicas.
Ver um objeto desses com tanta clareza muda a nossa intuição de tempo: na escala humana, “alguns milhares de anos” é quase eterno; na escala estelar, é menos do que um piscar de olhos que deixa rastros suficientes para contar uma história inteira, desde que o instrumento seja bom e a paciência seja maior ainda.

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